sábado, 9 de abril de 2011

Contos da Meia Noite - Dois corpos que caem

ESTETOSCÓPIO

Oculto,

em mim ausculto

um culto secreto

em meu peito.


Guilherme Salla


O PRIMEIRO FESTIVAL DIÁLOGOS COM A LITERATURA DA SERRA DA MANTIQUEIRA FOI UM BALDE DE ÁGUA LITERÁRIA NA MINHA CABEÇA, DE UMA VEZ SÓ. JOGADO PELAS COSTAS. SENTI ASSIM, MOLHADA, DEU FRIO E PARECE QUE ATÉ HOJE AINDA NÃO SEQUEI. GOSTOSO.

A SENSAÇÃO DE OVERDOSE CONTINUA PULSANDO NA VEIA E QUANDO LEIO A POESIA DE GUILHERME SALLA, O GOSTO DOS CALDOS QUENTES TOMADOS A NOITE NA SERRA ME VEM A BOCA, NA MEMÓRIA, AS CONVERSAS TABAGISTAS DA RODA DE FUMANTES.

HOJE O LINDO ESTETOSCÓPIO MÍOPE DE GUILHERME EMOLDURA MEU HUMILDE ESPAÇO.

AOS VIPS DO FESTIVAL, UM ESTALADO BEIJO SAUDOSO. QUE GRUPO DANADO DE BOM NÃO?

SERÁ QUE ESTE ANO SUBIREMOS A SERRA NOVAMENTE?

http://www.guisalla.wordpress.com

Um vício...

PAM






Pela fresta da janela
A luz do poste
ilumina o fio de alta tensão.
Na fresta da janela
A canga de praia
Dependurada
É lona de circo
A contornar o fio
Por onde pousa o equilibrista,
Passarinho que
Descanta na noite.
Descanta,
Desvoa.
Insone,
Imóvel e
Silente
Às estrelas
E segredos.

Pam Orbacam






sexta-feira, 8 de abril de 2011

Élio Camale - Caso

Eu digo Adeus





O tempo não para, já dizia Cazuza, mesmo entre tentativas frustradas de arrancar as pilhas do relógio de parede ou tirar da tomada o fio que ilusoriamente faz com que o tempo passe.
Quando o relógio para por natureza, por falta de folego (não encontro a merda do acento circunflexo nessa porra de teclado do Mac... Ah, como o Léo Nassif me faz falta nessas horas...) a idiotice humana (eu, nesse caso) o leva para fazer andar, para fazer passar, para mostrar de forma concreta que o tempo passa e que isso é visível aos olhos.
Então olhe para o ponteiro que pisa sobre os marcadores de segundos passo a passo, como se andasse em direção a uma encruzilhada e sofra. Sofra com o olho, com o ruído do tic tac e com as mudanças de hormonio (a merda do acento no Mac...).
Sinto fome, mas estou sem apetite. Hoje eu esqueci o fenobarbital. Neuronios a menos (merda de Mac) após tantas crises convulsivas.
A vizinha diz que é doença do demo. Foda-se a vizinha. Aliás, ela não fode.
Derrubei café amargo no meu chão de madeira. O cinzeiro lotado denuncia a noite insone. Eu tento arrumar a casa, mas não consigo, eu tento me arrumar, mas não consigo.
Queria ouvir o gemido de pele alva e fria, sem lembrar do tempo, inclemente, que me faz dizer adeus.

Pam Orbacam

Amor e inocência

quinta-feira, 7 de abril de 2011

CHEIRO





Confesso e afirmo que hoje acordei com o olfato apurado demais, fato esse que me causa estranhamento justamente pela minha deficiencia olfativa constante proveniente do excesso de fumo e substancias ilícitas consumidas há anos na juventude.
Saí de casa em direção ao trabalho. Droga! Esqueci a porra da fluoxetina. Por mais que eu tente manter regularidade e constancia nessa merda de vida eu não consigo. Caso, descaso, me apaixono tão facilmente quanto me desapaixono, tomo o fenobarbital e tomo cachaça de cambuci, entro no trabalho as 14 horas e chego em cima da hora quando não chego uma hora antes e fico vagando feito alma penada na Praça do Carmo. Esqueci a porra da fluoxetina. Pressinto que o dia será atípico... ou típico.
Tróleibus incrivelmente lotado as 13h14min. Por que tanta gente teima em andar pela cidade que fede a lixo?
Uma criatura levanta para descer no próximo ponto. Sento. O homem ao meu lado, um senhor já de certa idade, exala um cheiro insuportável de banho não tomado associado a roupa já usada por dias.
Tentei distrair a mente pensando em bobagens. Nossa! Preciso devolver a blusa do Araújo! Já faz um ano que ele gentilmente me emprestou seu jaquetão de frio e eu ainda não o devolvi... Puta sacanagem com o cara. Merda, esqueci a porra da fluoxetina...
Definitivamente é IMPOSSÍVEL ficar sentada ao lado do pobre senhor. Levanto. Um homem se acomoda ao meu lado dividindo comigo e com as bactérias o ferro onde todo mundo coloca a mão todos os dias na tentativa de não cair sentado no colo de outro passageiro numa provável freada brusca do motorista, que passa o dia a passar a flanela encardida e suada no rosto. Deve estar fedendo...
Além disso, o homem que divide comigo as bactérias do ferro está com o mesmo cheiro do pobre senhor que estava sentado ao meu lado.
Troco de lado. Tudo bem, eu exagerei um pouquinho no perfume hoje, foi uma apertada aflita no pininho do frasco, mas... Vá a merda! Custa tomar um banho e lavar as roupas?
Meu olfato amanheceu aguçado. Merda! Esqueci a porra da fluoxetina. Preciso beber uma gelada. Preciso colocar algodão no nariz.
O dia passou, como sempre passa. Algumas pessoas interessantes me visitam de vez em quando na biblioteca, mas hoje eu pude perceber o cheiro delas, inclusive as que não tem cheiro... nenhum.
A noite chega, O Marcelino chega. Eu sento no chão de madeira, abraço as pernas, sozinha, do lado de fora da sala do curso e tento participar isoladamente como ouvinte.
Um homem bem vestido, alto, peruca branca, olhos azuis pergunta pelo recital. Digo que já foi. Ele lamenta pelos belos olhos azuis que já não lhe permitem enxergar direito o horário no convite...
Sento isoladamente no chão de madeira, do lado de fora da sala, abraço as pernas, encosto o queixo no joelho e tento participar como ouvinte do curso do Marcelino.
Merda! esqueci a porra da fluoxetina... Merda! Ainda sinto o seu cheiro de carne alva e fria do dia anterior.


Pam Orbacam