domingo, 17 de abril de 2011

SEXTA-FEIRA A NOITE




Sexta-feira à noite
os homens acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.


MARINA COLASANTI

TATUAGEM INDÍGENA (Eu sou má... muito má...)




Bonita sua tatuagem...
Me disse isso, com olhos de alfinete, boca vermelha e carnuda. Tinha ciúme dele.
Obrigada. Fiz numa tribo indígena (lembrei da Clarah e ri por dentro), os Tucumã, no Acre (Afe!, não sei daonde tirei isso). Passei quatro meses lá. São pigmentos naturais, preparados na hora, retirados de sementes. Eles usam um palito afiado de uma árvore que naturalmente expele um líquido anestésico, como um leite. Adormece a pele e não dói. Só que depois de um dia o efeito passa, a pele incha, surgem feridas que sangram e minam leite e pus. Coça e dói por 10 dias, porém o resultado final é este.
Nossa! Que interessante! Já havia ouvido mesmo falar nessa técnica, mas nunca conheci alguém que tivesse tido coragem de fazer.
Como o povo é besta. Acredita em qualquer bobagem que voce fala. Basta fazer cara cult.
Subi as escadas e mal podia esperar para entrar na administração pra me esborrachar de rir.
Desci, peguei um café. Me rodeava feito urubu sobrevoando carniça.
Já tomou um?
Sim.
Quer água?
Não. Ah! Acho que vou tomar mais um cafezinho... Chegou pertinho de mim. Me olhava. Seria mesmo ciúme dele ou ela queria me comer?
Ele desce e diz pra mim em voz alta: Vamos comer pastel? Vamos!
Argh! Não! Se fosse cerveja iria. Pastel não. Óleo, sol, gordura... Bom apetite.
Ela o acompanhou até o pastel. Feição que misturava inconformismo com desejo (de mim ou dele?).
Sei lá. Sei que saí de lá rindo muito e com a sensação de missão do dia cumprida.


Pam Orbacam


sábado, 16 de abril de 2011




Debaixo do colchão do recém nascido, e mesmo na cama onde está a mãe, pôe-se uma tesoura de aço, aberta, para afungetar as Bruxas que vêm durante a noite sugar o sangue da criança.
É um costume de Portugal que se espalhou no Brasil. Há igualmente na Espanha, França, Bulgária, Romênia, Grécia, etc.
O aço amendronta os maus espíritos e fá-los fugir imediatamente de sua presença mágica.
A tesoura é, por vezes, substituída por uma faca, simples lâmina de aço, um pedaço de foice cegadeira, um punhal. O essencial é que o aço esteja à vista, a lâmina, desembainhada, ou a tesoura, de pontas abertas, em posição de cortar. As Bruxas, apavoradas, desaparecem como fumaça.
Para os espíritos malignos que andam à noite, as forças adversas, obscuras e poderosas, a lâmina de aço é um amuleto defensivo de poder irresistível.
A simplificação do uso, com o passar dos tempos, reduz a tesoura a uma única das pernas e a lâmina a uma agulha grande, de aço, reluzente. Bastará que a bruxa perceba um desses instrumentos, para deduzir que sua presença está sendo aguardada com uma recepção atrevida e feroz. E fugirá do alcance dessas ameaças. Daí, lógicamente, tornar-se suficiente uma tesoura, objeto caseiro, mas de possível agressão, uma lâmina de aço, isolada, para afastar a Bruxa.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Control Alt Del

Nossa! Hoje é um dia desses que, se eu pudesse deletar da minha vida em apenas um clique agradeceria a todos os deuses.
Dor. Dor de cabeça infernal. Não consigo abrir o olho, dói. Tento levantar de olhos fechados. Dói o pescoço, dói a cabeça. Desisto e deito.
Tenho que trabalhar. Tento de novo. Ai. Não dá. Abro os olhos. Um deles está grudado. deve ser conjuntivite, arde e sinto uma ameixa em calda banhada em areia na cara. Dói a cabeça, dói o pescoço. Merda! Não adianta usar melissinha nem tingir os cabelos super hiper mega pretos de loiro pra disfarçar... a idade está chegando e o tempo é inclemente.
Puta sol lá fora. Hoje entro as 10 e vou até as 20. Merda! Tenho que ir trabalhar. Não posso! vou contagiar todo mundo. Contagiar quem? Compartilho meus dias de trabalho com moscas e fantasmas.
Não dá. Vou ao médico. O que voce quer moça? Como assim o que eu quero? Estou num pronto socorro, quero ser atendida, porra! RG e carteirinha do convenio. Perdi a carteirinha. Infelizmente não podemos atende-la moça, sem a carteirinha não há como fazer a ficha.
Tá, tá, vou no posto de saúde. A cada passo uma fisgada na cabeça (excesso ou falta de fenobarbital?). Não consigo atravessar a rua, meu pescoço não mexe. Fui assim mesmo. U carro buzinou, mandei a merda.
Chego no posto. Um formigueiro. Pois não moça? Pois sim, dona moça, posso ser atendida? Cara de pirata, olho esquerdo aberto, direito fechado. Carteirinha do SUS por favor. POR FAVOR! Nossa! Bencão para os ouvidos. Essa eu não perdi. Tó, tá aqui.
Vou fazer sua ficha. Pode aguardar ali. Olho (com um olho só). Onde? Encostei na parede junto ao extintor que apesar de estar com apenas um olho já condenado por um possível glaucoma consigo ver que está com a validade vencida.
Trinta minutos depois a mocinha me chama. Assine aqui. Agora pode esperar lá do outro lado.
Tá.
Fui.
Após tres horas de espera, dor no olho, dor no pescoço e uma puta fome, abandono a parede cinza e vou embora, do mesmo jeito que cheguei, com dor, ameixa em calda na cara, pescoço duro, sem ser atendida.
Chego em casa, enfio guela abaixo tres neosaldinas, um diclofenato sódico e 20mg de diazepan pra dormir, esquecer da dor, da ameixa, do pescoço, dos meus quarenta anos e do encontro de hoje a noite, que a essa altura melou.
Dois eventos na Casa hoje a noite. O Cassiano não vai estar lá, pediu ajuda a mim e a Cris. Coitada da Cris. Desculpe Cassiano, desculpe Cris, não sou de deixar ninguém na mão, mas eu hoje to só o pó da rabiola e ainda vou sofrer desconto no pagamento por causa da merda de atendimento médico dessa porra de país, como se já não bastasse a precária proposta e condições de educação que os raros bons professores enfrentam no cotidiano, o que me enerva a cada feriado que chega e minha filha questiona o porque do feriado e quem foi Tiradentes... Aff.
Queria deletar esse dia da minha vida.


Pam Orbacam

quarta-feira, 13 de abril de 2011

TERMINAL



Eu imagino que através da vidraça o olho arda e queime exatamente tal qual arde e queima o meu, e que o frio que eu sinto da única camada de pele roçada e separada por ponteiros que teimam em tiquetaquear seja mascarado por uma mucosa morna temperada a alecrim.
A boca, cuidadosamente desenhada, umedeceu e emudeceu desejos distantes.
Teimo em sentar-me aos seus pés. Temo que beije meus pés.
Vejo meus fantasmas e seus demonios numa prosa doce.
A prosa terminal.

Pam Orbacam


domingo, 10 de abril de 2011

MÃE


(em memória de mamãe)

Preciso ir ao cemitério visitar sua avó... Disse, pensativa enquanto lustrava o chão da sala. Mexia os braços em movimentos vigorosos de vai e vem. É uma vergonha... a gente aqui ao lado do cemitério e não ir até lá visitar a vovó...
Continuou lustrando o chão. Tomou banho, passou batom, colocou o salto (sempre usava salto). era quarta feira. Toda quarta tinha horário marcado na manicure.
Vou fazer as unhas. Já volto.
Voltou.
Nossa! Coisa estranha! Acredita que a manicure passava o esmalte na minha unha e o esmalte escorria pros lados feito água? Eu heim... Tentou, tentou, aí o esmalte pegou. ficou bonito?
Vaidosa. Não lavava roupas. Papai pagava uma lavadeira. Não queria estragar as unhas.
Todo final de tarde tinha crises de asma. Tinha sempre na bolsa a bombinha. Colocava na boca, tragava duas vezes seguidas e a crise passava.
Naquela tarde não passou.
Foi enterrada de unhas feitas, no mesmo cemitério que a vovó.

Pam Orbacam.

Demonios




(Para André Orbacam)
Eu sinto muito.
Sinto muito por não ido até o fim. Sinto pela minha ausencia no momento, no seu momento.
Eu sinto muito, muito mesmo por estar sempre tão perto e ter fugido. Eu sempre fujo, voce que sempre me deteve, mas dessa vez não deu. Eu apenas fui, não deixei cartas, não deixei marcas, a não ser mágoas.
Eu sinto falta. Sinto falta da voz grave e sempre calma no meu ouvido pela manhã.
Eu sinto muito.
Eu sinto raiva. Sinto raiva por ter feito tudo sempre tão certo a ponto de dar errado.
Sinto vontade de escrever pra voce, mas hoje já não existe mais motivo, inspiração ou qualquer sopro de sua presença.
Às vezes acho que voce não existiu, apenas os seus demonios.

Pam Orbacam.